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Café Arábica e Café Robusta: Quais São as Diferenças na Formação dos Preços?

Café Arábica e Café Robusta: Quais São as Diferenças na Formação dos Preços?
Inteligência especializada em agronegócio

Café Arábica e Café Robusta: Quais São as Diferenças na Formação dos Preços?

Quem acompanha o mercado cafeeiro percebe uma coisa quase imediatamente: café arábica e café robusta não caminham exatamente pelo mesmo preço. Em alguns momentos, a diferença entre eles aumenta bastante. Em outros, diminui. Há períodos em que os dois sobem juntos, mas um sobe muito mais. Também existem momentos em que um mercado recua enquanto o outro encontra sustentação.

Isso não acontece por acaso.

Embora os dois sejam cafés comercializados no mercado internacional, eles atendem a diferentes usos, apresentam características agronômicas e sensoriais distintas, possuem estruturas de oferta diferentes e são acompanhados por referências internacionais próprias. Tudo isso entra na formação do preço que, no fim da cadeia, chega ao produtor.

Na prática, entender essa diferença é importante porque olhar somente para uma cotação internacional pode levar a uma conclusão errada sobre o valor do café produzido na propriedade.

Um produtor de arábica não está simplesmente vendendo uma saca cujo preço é determinado pela bolsa. Da mesma forma, o produtor de conilon, uma das principais formas comerciais de Coffea canephora, não recebe automaticamente o mesmo movimento observado no mercado do arábica.

Entre a cotação internacional e o preço efetivamente recebido existem qualidade, classificação, origem, disponibilidade, câmbio, custos, logística, oferta regional, demanda dos compradores e os chamados diferenciais de preço.

É aí que começa a ficar interessante.

A primeira diferença: arábica e robusta são mercados relacionados, mas não iguais

Café Arábica e Café Robusta: Quais São as Diferenças na Formação dos Preços?

Arábica e robusta pertencem ao mesmo grande mercado mundial de café, mas representam produtos com características diferentes.

O café arábica corresponde à espécie Coffea arabica. O robusta está associado à espécie Coffea canephora, dentro da qual existem variedades botânicas como conilon e robusta. A Embrapa destaca justamente essa distinção entre conilon e robusta dentro de Coffea canephora.

Essa diferença biológica não fica restrita à lavoura.

Ela aparece na produtividade, na adaptação climática, na resistência a determinadas condições, nas características do grão, na composição química, no perfil sensorial e nos usos industriais.

E quando um produto apresenta características diferentes, ele passa a ter compradores com necessidades diferentes.

O resultado é que não existe um único preço mundial do café que sirva igualmente para todo café produzido.

A Organização Internacional do Café trabalha com diferentes grupos de preços para representar as características dos cafés comercializados internacionalmente. A própria organização acompanha separadamente grupos de arábica e robustas, além de referências de mercado futuro em Nova Iorque e Londres.

Isso já responde parte da pergunta central: os preços são diferentes porque os produtos são diferentes e porque cada segmento possui sua própria estrutura de oferta, demanda, qualidade e comercialização.

O que faz o arábica ter, em muitos períodos, um preço superior?

Não existe uma regra dizendo que todo arábica será sempre mais caro que todo robusta. A realidade comercial é mais detalhada do que isso.

O que existe é uma diferença estrutural de valorização entre os mercados.

O arábica costuma estar associado a características sensoriais valorizadas em determinados segmentos de consumo, principalmente quando apresenta qualidade elevada. A Organização Internacional do Café destaca que a qualidade do arábica é avaliada por métodos de classificação e degustação, e que cafés de maior qualidade podem receber prêmios sobre os preços de referência.

O grão de arábica também apresenta composição química diferente. Pesquisas publicadas pela Embrapa mostram variações em compostos como sacarose, ácidos orgânicos, lipídios, trigonelina e cafeína entre materiais de café arábica.

Isso ajuda a explicar por que o comprador não olha apenas para o peso físico do café.

Ele também olha para aquilo que aquele lote consegue entregar em termos de bebida, padrão, composição, origem, consistência e utilização.

Pense numa situação comum.

Dois lotes podem ter o mesmo peso, mas não necessariamente têm o mesmo valor comercial. Se um deles apresenta características de bebida mais desejadas, melhor classificação e maior adequação ao padrão procurado por determinado comprador, existe espaço para uma diferença de preço.

É por isso que falar apenas “o café está valendo tanto na bolsa” é insuficiente para explicar quanto determinada saca vale na propriedade.

E por que o robusta pode ser mais barato?

O primeiro cuidado aqui é evitar uma simplificação: robusta não significa café sem qualidade.

Existe robusta de qualidade elevada e com aplicações específicas. A Organização Internacional do Café reconhece sistemas próprios de avaliação para robustas e destaca que cafés dessa espécie podem ter características valorizadas, inclusive em determinadas preparações e misturas.

O ponto é outro.

A estrutura de produção do Coffea canephora apresenta características que podem favorecer maior produtividade e menor custo relativo em determinadas condições.

A Organização Internacional do Café descreve o robusta como uma cultura que, em geral, é mais fácil e menos custosa de produzir, com produção mais rápida e maior rendimento por planta em comparação com o arábica. Também destaca sua maior concentração de cafeína e perfil sensorial mais intenso e amargo.

A Embrapa também registra diferenças agronômicas importantes dentro de Coffea canephora, incluindo características de adaptação e resistência relacionadas às variedades conilon e robusta.

Na formação de preço, isso importa porque o comprador está avaliando um produto inserido em uma cadeia industrial específica.

O robusta possui papel importante na indústria de café solúvel e também é utilizado em misturas com arábica. Em determinadas formulações, suas características de corpo, intensidade e formação de creme são desejadas.

Portanto, o preço não pode ser entendido como uma simples disputa entre “café melhor” e “café pior”. São mercados que atendem necessidades diferentes.

A bolsa de Nova Iorque influencia o arábica

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Quando se fala em formação internacional do preço do arábica, uma das principais referências é o mercado futuro de café da ICE em Nova Iorque.

A ICE descreve o contrato de café arábica negociado em Nova Iorque como a referência mundial para a formação dos preços do arábica. O contrato representa café verde de determinados padrões de qualidade e possui regras específicas de origem, classificação, armazenamento, entrega e diferenciais.

Isso é importante para entender uma diferença que muitas vezes passa despercebida.

A bolsa não está dizendo que todo café arábica do mundo vale exatamente aquele número.

Ela estabelece uma referência para determinado padrão comercial.

Um café produzido no Brasil pode ser negociado acima ou abaixo dessa referência dependendo de suas características, localização, qualidade, disponibilidade, condições comerciais e custos para colocar aquele café nas mãos do comprador.

Na própria estrutura do contrato existem diferenças de valor associadas a determinadas origens e locais de entrega. A ICE estabelece prêmios e descontos para diferentes origens e características dentro das regras do contrato.

Esse conceito é fundamental para compreender a comercialização.

A cotação internacional é uma referência. O preço físico é uma construção.

O robusta tem outra referência internacional

O mercado internacional do robusta possui sua própria referência na ICE, com contrato negociado em Londres.

A própria ICE identifica o contrato de futuros de robusta como referência global para a precificação do robusta físico. O contrato é utilizado por produtores, exportadores, comerciantes, importadores e torrefadores para administrar exposição aos preços e negociar o produto.

Essa diferença de referência ajuda a explicar por que não faz sentido comparar diretamente uma cotação de arábica em Nova Iorque com uma cotação de robusta em Londres como se fossem duas versões do mesmo produto.

São contratos diferentes.

Possuem unidades de negociação diferentes, especificações diferentes, padrões de entrega diferentes e estruturas próprias de mercado.

Na ICE, o contrato de arábica é cotado em centavos de dólar por libra-peso, enquanto o contrato de robusta é cotado em dólares por tonelada.

Por isso, antes mesmo de olhar para o número na tela, é preciso saber qual café está sendo referenciado, em qual mercado e em qual unidade.

Mas se as bolsas são diferentes, por que os preços dos dois cafés às vezes se movimentam juntos?

Porque os dois fazem parte da mesma cadeia global de consumo.

Um torrefador, uma indústria de café solúvel, um comerciante internacional ou um comprador de café pode ajustar suas decisões levando em consideração a relação entre os preços das diferentes variedades.

Quando o arábica fica muito caro em relação ao robusta, alguns compradores podem aumentar a utilização relativa de robusta em determinadas misturas ou aplicações.

Quando o robusta fica muito caro, a relação econômica entre os dois pode mudar novamente.

É o chamado efeito de substituição, mas ele não é absoluto.

Nem todo café arábica pode ser substituído por robusta sem alterar o produto final. O perfil sensorial, a composição, a finalidade industrial e a expectativa do consumidor continuam importando.

Por isso, os dois preços podem apresentar uma relação de longo prazo sem necessariamente se moverem em perfeita sintonia.

A Organização Internacional do Café acompanha justamente essa relação entre os diferentes grupos de café e os mercados futuros de Nova Iorque e Londres.

Qualidade é uma das peças mais importantes dessa formação de preço

Imagine que um produtor tenha produzido uma excelente safra de arábica.

Ele olha para a cotação internacional e pensa: “Minha saca vale exatamente isso”.

É aí que pode surgir um erro.

A qualidade física e sensorial do lote pode alterar o valor recebido.

A classificação considera características do grão, defeitos, tamanho, uniformidade e outros parâmetros. Em segmentos de maior valor, a avaliação sensorial também ganha peso.

A Organização Internacional do Café explica que a avaliação de qualidade pode envolver classificação e degustação, e que cafés de maior qualidade podem alcançar preços superiores aos valores de referência.

Isso significa que dois produtores, na mesma região e na mesma semana, podem receber valores diferentes.

Não necessariamente porque um comprador está “pagando errado”, mas porque os lotes podem ser diferentes.

É aqui que a comercialização deixa de ser apenas acompanhamento de preço e passa a ser gestão.

Produzir qualidade cria uma possibilidade de diferenciação, mas é preciso conseguir identificar, separar, classificar e comercializar essa qualidade.

O papel dos diferenciais: é aqui que a cotação vira preço físico

Café Arábica e Café Robusta: Quais São as Diferenças na Formação dos Preços?

O diferencial é uma das peças que ajudam a transformar uma referência internacional em um preço comercial para determinado café.

De forma simplificada, podemos pensar assim:

Preço físico = referência internacional + ou − diferencial + efeito do câmbio − custos e ajustes da cadeia.

Essa fórmula não é uma regra matemática universal para todos os negócios, mas ajuda a visualizar a lógica.

Se a referência internacional sobe, existe uma pressão de alta sobre o preço físico. Mas isso não significa que a alta será transferida integralmente para o produtor.

O diferencial pode mudar.

O câmbio pode mudar.

O frete pode mudar.

A disponibilidade de café pode mudar.

O comprador pode estar mais ou menos disposto a pagar por determinado padrão.

É por isso que a cotação internacional e o preço recebido na fazenda não são a mesma coisa.

A Conab apresenta justamente essa relação em suas análises de mercado, comparando preços internos, referências internacionais e paridade de exportação para arábica e conilon.

O câmbio entra na conta dos dois

Outro ponto que costuma confundir quem acompanha apenas a cotação em dólar é o efeito do câmbio.

O café é uma mercadoria fortemente inserida no comércio internacional. Por isso, mudanças na relação entre o real e o dólar podem alterar o equivalente em moeda brasileira.

Imagine que a referência internacional permaneça praticamente estável em dólar.

Se o dólar subir diante do real, a conversão pode aumentar o valor equivalente em reais.

Agora imagine o contrário: a cotação internacional sobe, mas o dólar cai.

Parte do movimento positivo em dólar pode ser compensada pela valorização do real.

É por isso que o produtor que acompanha somente a bolsa estrangeira está vendo apenas uma parte da fotografia.

Para entender o preço na propriedade, é preciso acompanhar pelo menos três camadas:

Essa leitura evita uma das armadilhas mais comuns da comercialização: confundir preço internacional com preço disponível para venda na fazenda.

Oferta e demanda também funcionam de maneira diferente em cada mercado

O preço do café não depende apenas de quanto café existe no mundo.

É preciso saber qual café está disponível, onde ele está, quando estará disponível e quem precisa comprá-lo.

Uma redução importante na oferta de arábica pode pressionar o preço do arábica mesmo que exista bastante robusta disponível.

Da mesma maneira, uma queda na oferta de robusta pode elevar seu preço sem que o arábica necessariamente apresente a mesma intensidade de alta.

Esse é um ponto essencial para interpretar o mercado.

O mercado não trabalha com uma única “quantidade de café”. Ele trabalha com diferentes tipos, origens, padrões, qualidades e períodos de disponibilidade.

É por isso que problemas climáticos em uma região produtora específica podem afetar um mercado com mais força do que outro.

Brasil, Vietnã e a diferença entre os mercados

O Brasil ocupa posição central na produção mundial tanto de arábica quanto de café canephora, enquanto o Vietnã possui enorme importância na oferta mundial de robusta.

A Organização Internacional do Café aponta o Brasil entre os principais produtores de arábica e também entre os grandes produtores de robusta, enquanto o Vietnã aparece entre os principais produtores de robusta.

Essa distribuição geográfica cria efeitos diferentes sobre os preços.

Quando as condições de produção no Brasil mudam, o impacto pode atingir simultaneamente os dois mercados, mas não necessariamente com a mesma intensidade.

Quando a produção do Vietnã enfrenta alterações importantes, o efeito tende a aparecer com mais força no mercado do robusta.

A Conab também mostra em suas análises que acontecimentos relacionados à colheita brasileira, à produção vietnamita e às condições de oferta de outros países podem exercer influência sobre as cotações de arábica e conilon.

Para quem comercializa café, essa diferença é muito útil.

Em vez de perguntar apenas “o café subiu ou caiu?”, uma pergunta mais interessante é:

Qual café está subindo, por qual motivo e qual parte da cadeia está sendo afetada?

Clima pode afetar arábica e robusta de maneiras diferentes

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O clima é outro fator que ajuda a explicar por que os preços dos dois mercados podem se separar.

As espécies possuem características agronômicas diferentes e respondem de maneiras diferentes às condições ambientais.

No caso do arábica, altitude, temperatura, disponibilidade hídrica, ocorrência de geadas em determinadas regiões, excesso de chuva e condições durante a floração e enchimento dos frutos podem alterar expectativas de produção e qualidade.

Pesquisas da Embrapa mostram que diferentes regimes hídricos podem afetar tanto produtividade quanto características químicas e sensoriais do café arábica.

No Coffea canephora, as características de adaptação são diferentes. A Embrapa descreve, por exemplo, diferenças entre conilon e robusta relacionadas ao porte, resistência ao déficit hídrico e suscetibilidade a pragas e doenças.

Isso significa que uma mesma condição climática não necessariamente produz o mesmo impacto econômico nas duas culturas.

Para o mercado, o que interessa é a consequência sobre a oferta esperada.

Se uma condição climática reduz a expectativa de produção de determinado café, compradores podem antecipar a possibilidade de menor disponibilidade futura. Essa expectativa pode aparecer nos preços antes mesmo de a perda física ser completamente conhecida.

Por que o preço pode subir antes de faltar café?

Porque o mercado trabalha com expectativa.

Esse talvez seja um dos pontos mais importantes para quem acompanha commodities.

O preço de hoje não representa apenas aquilo que está acontecendo hoje. Ele também incorpora informações sobre aquilo que os participantes do mercado acreditam que poderá acontecer adiante.

Se uma seca ameaça uma região produtora, o mercado pode reagir antes da colheita.

Se as chuvas melhoram e as expectativas de produção aumentam, parte desse prêmio de risco pode desaparecer.

Foi justamente esse tipo de mecanismo que apareceu em relatórios recentes da Organização Internacional do Café, que registrou movimentos de preços associados a preocupações com clima, oferta restrita e posteriormente expectativas de aumento da oferta.

Por isso, acompanhar somente o volume efetivamente disponível hoje pode ser insuficiente.

O mercado tenta antecipar o equilíbrio futuro entre oferta e demanda.

Arábica e robusta também competem dentro da indústria

Existe uma relação interessante entre os dois mercados: eles são diferentes, mas também podem competir por espaço em determinados produtos.

Um torrefador pode utilizar diferentes proporções de arábica e robusta em uma mistura dependendo do produto desejado, do custo dos grãos e das características que pretende entregar.

O robusta pode contribuir para intensidade, corpo e formação de creme em determinadas preparações. O arábica pode contribuir com características sensoriais distintas, especialmente quando possui qualidade elevada.

Quando a diferença de preço entre os dois fica muito grande, a indústria pode reavaliar suas formulações dentro dos limites técnicos e comerciais do produto.

Quando a diferença diminui, essa vantagem econômica pode mudar.

É justamente por isso que a diferença entre os preços dos dois cafés merece atenção.

Não é apenas uma curiosidade de mercado.

Ela ajuda a entender decisões de compra da indústria.

O que significa quando a diferença entre arábica e robusta aumenta?

Não existe uma interpretação única.

Uma diferença maior pode acontecer por vários motivos.

Por isso, observar apenas a distância entre os dois preços não explica o motivo da diferença.

É necessário investigar qual lado está puxando a diferença.

Essa pergunta muda completamente a análise.

Se o arábica sobe e o robusta fica estável, a diferença aumentou por uma razão.

Se o arábica fica estável e o robusta cai, a diferença aumentou por outra.

Se os dois sobem, mas um sobe mais, existe ainda outra explicação.

O número final é o mesmo: a distância aumentou. Mas a história por trás do número é diferente.

E quando a diferença entre eles diminui?

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A lógica é a mesma.

A aproximação entre os preços pode acontecer porque o arábica perdeu valor relativo, porque o robusta ganhou valor relativo ou por uma combinação dos dois movimentos.

A Organização Internacional do Café acompanha essa relação entre os grupos de café e os mercados futuros, inclusive observando a diferença entre as referências de Nova Iorque e Londres.

Quando a diferença muda significativamente, o mercado está transmitindo uma informação.

O trabalho de quem comercializa é descobrir qual.

O produtor brasileiro precisa acompanhar a bolsa de Nova Iorque ou Londres?

Depende do café produzido.

Para quem produz arábica, a referência de Nova Iorque tem enorme importância na formação das expectativas de preço e na estrutura de comercialização internacional.

Para quem produz conilon, a referência internacional de robusta em Londres também é relevante.

Mas acompanhar a bolsa não significa copiar o preço da tela para dentro da planilha da propriedade.

Na prática, a informação precisa ser traduzida.

O produtor precisa entender como a referência internacional conversa com o preço físico da sua região, com o câmbio, com a qualidade do lote, com o comprador e com o momento da comercialização.

É aí que a informação deixa de ser notícia e começa a virar ferramenta de gestão.

Um exemplo simples para entender a formação do preço

Imagine dois produtores.

O primeiro produz arábica. O segundo produz conilon.

Em determinado momento, as referências internacionais estão subindo.

Seria fácil concluir que os dois produtores receberão um aumento proporcional.

Mas isso pode não acontecer.

O arábica pode estar sendo beneficiado por uma redução na oferta mundial de cafés de determinada qualidade, enquanto o mercado de robusta enfrenta uma oferta mais confortável.

Ao mesmo tempo, o câmbio pode se movimentar.

O diferencial de exportação pode mudar.

O comprador local pode estar com estoque elevado.

O frete pode ter aumentado.

O produtor pode ter um lote de qualidade diferente do padrão utilizado como referência.

No final, a variação recebida na fazenda pode ser bem diferente daquela observada na bolsa.

Isso não significa que a bolsa “não funciona”.

Significa que a bolsa é uma parte da formação do preço, não a formação inteira.

Por que o preço do café arábica e do robusta não pode ser comparado apenas pela saca?

Porque as referências internacionais utilizam unidades diferentes.

O contrato de arábica da ICE é tradicionalmente cotado em centavos de dólar por libra-peso, enquanto o contrato de robusta é cotado em dólares por tonelada.

Isso significa que pegar os dois números diretamente e dizer que um está “duas vezes maior” pode produzir uma comparação sem sentido se as unidades não forem convertidas.

O produtor precisa transformar as referências para uma unidade comparável e, depois, considerar câmbio, custos, diferenciais e condições comerciais.

Parece um detalhe.

Não é.

Grande parte das confusões na leitura de commodities nasce justamente da comparação de números que representam coisas diferentes.

O preço internacional também não conhece a realidade de cada fazenda

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Uma bolsa internacional não sabe quanto custa produzir em uma propriedade específica.

Ela não conhece a produtividade daquela lavoura, o custo da mão de obra, a condição financeira do produtor, o custo de secagem, armazenamento, beneficiamento ou transporte.

Também não sabe se o produtor precisa vender naquele mês ou se pode esperar.

Essas informações pertencem à gestão de porteira pra dentro.

Por isso, o preço de mercado e o custo de produção são duas informações diferentes.

Uma saca pode estar valorizada internacionalmente e ainda assim exigir cuidado na decisão de venda.

Da mesma forma, uma cotação internacional menor não significa automaticamente que qualquer venda seja ruim.

O resultado econômico depende da relação entre preço, custo, qualidade, produtividade, momento e estratégia comercial.

É aqui que muita gente se perde na comercialização do café

O problema começa quando o produtor recebe muita informação, mas não consegue conectar uma coisa à outra.

Vê a cotação do arábica.

Vê o dólar.

Recebe uma notícia sobre clima.

Escuta que o Vietnã terá determinada produção.

O comprador oferece um preço.

Depois aparece uma notícia dizendo que a bolsa subiu.

E surge a dúvida:

“Se a bolsa subiu, por que meu preço não subiu na mesma proporção?”

A resposta normalmente está justamente nas camadas intermediárias da formação de preço.

É o custo invisível da desorganização: não necessariamente uma perda que aparece imediatamente em dinheiro, mas tempo gasto procurando informação, comparação feita de maneira errada e decisão tomada sem enxergar o conjunto.

O caminho mais útil é sair da informação isolada e ir da anotação à decisão.

O que observar no mercado de arábica

Para entender a formação do preço do arábica, vale acompanhar um conjunto de informações em vez de uma única cotação.

Nenhum desses fatores precisa ser analisado isoladamente.

O valor está em entender como eles se combinam.

O que observar no mercado de robusta

Para o robusta, a lógica é parecida, mas os fatores de oferta e demanda precisam ser interpretados de acordo com a realidade desse mercado.

A lógica central permanece: o preço internacional fornece uma referência, enquanto o mercado físico constrói o valor efetivamente negociado.

Arábica e robusta podem subir juntos, mas por motivos diferentes

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Essa é uma das situações que mais confundem quem está começando a acompanhar o mercado.

Imagine que uma alteração climática importante gere preocupação com a oferta global.

Os dois mercados podem subir.

Mas isso não significa que o mercado esteja tratando os dois cafés como se fossem iguais.

O arábica pode estar reagindo a uma preocupação específica com determinada região produtora e determinada qualidade.

O robusta pode estar reagindo a uma redução de oferta em outro país, à demanda industrial ou à relação de competitividade com o arábica.

O movimento pode ser simultâneo, mas a causa pode ser diferente.

Por isso, uma boa análise não termina quando identifica que “o café subiu”.

Ela começa aí.

O produtor deve olhar para a diferença entre os dois preços?

Sim, porque essa diferença pode ajudar a entender a relação entre os mercados.

Mas ela deve ser tratada como uma informação de contexto, não como uma regra automática de comercialização.

Quando a diferença entre arábica e robusta muda muito, vale perguntar:

Essas perguntas são muito mais úteis do que simplesmente comemorar uma alta ou se preocupar com uma queda.

Uma diferença de preço não significa automaticamente uma oportunidade

Esse cuidado é importante.

Quando o arábica está muito mais caro que o robusta, pode parecer óbvio que existe uma oportunidade de substituição.

Mas a indústria não compra apenas preço.

Compra características.

Uma mistura precisa manter determinado perfil. Uma indústria de café solúvel possui necessidades específicas. Um comprador de café especial procura atributos que não podem ser substituídos simplesmente por um grão mais barato.

Por isso, a relação de preços influencia as decisões, mas não determina sozinha o que será comprado.

Essa é uma das razões pelas quais os mercados conseguem permanecer com diferenças expressivas de preço durante determinados períodos.

O que realmente chega ao produtor?

Essa talvez seja a pergunta mais importante de todas.

O produtor não vende uma cotação.

Ele vende um café.

Esse café possui uma espécie, uma variedade ou material genético, uma origem, uma qualidade, uma classificação, uma condição de armazenamento, uma disponibilidade e uma condição comercial.

O comprador olha para tudo isso.

A referência internacional entra como uma das bases dessa negociação.

O câmbio transforma parte da referência internacional em realidade monetária brasileira.

O diferencial ajusta o valor conforme as características do café e as condições do mercado.

Os custos da cadeia também entram na conta.

No fim, chega-se ao preço praticado na região ou diretamente na propriedade.

A Conab apresenta exemplos de acompanhamento de preços internos, referências de Nova Iorque e Londres e cálculos de paridade de exportação, justamente mostrando que existem várias etapas entre a cotação internacional e o preço físico brasileiro.

Então, qual é a principal diferença entre a formação do preço do arábica e do robusta?

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A resposta pode ser resumida assim:

O arábica e o robusta pertencem ao mesmo mercado global de café, mas possuem produtos, compradores, características de qualidade, regiões produtoras, estruturas de oferta e referências internacionais diferentes.

O arábica tem como uma de suas principais referências internacionais o mercado futuro da ICE em Nova Iorque. O robusta possui referência própria no mercado futuro da ICE em Londres.

Os dois preços sofrem influência de oferta, demanda, clima, estoques, produção, consumo, câmbio e comércio internacional.

Mas a intensidade de cada fator pode ser diferente.

E, quando chegamos ao mercado físico, entram ainda qualidade, origem, classificação, logística e diferenciais.

O ponto que vale guardar

Se existe uma ideia para guardar deste artigo, é esta:

Não existe um único “preço do café”. Existem diferentes referências de preço para diferentes mercados e qualidades de café.

Arábica e robusta não são apenas dois nomes para o mesmo produto.

Eles representam mercados conectados, mas diferentes.

Por isso, quando a cotação do arábica sobe, não basta concluir que o robusta necessariamente acompanhará na mesma proporção.

Quando o robusta cai, também não significa automaticamente que o arábica terá o mesmo comportamento.

É preciso olhar para a causa.

Quem está produzindo mais?

Quem está produzindo menos?

Como está o clima?

Qual é a expectativa para a próxima safra?

Como está a demanda?

Qual é a diferença entre os preços?

O câmbio está ajudando ou tirando força da conversão para o real?

E, principalmente, qual é a qualidade do café que está sendo comercializado?

Essa última pergunta aproxima o mercado internacional da realidade da propriedade.

Da bolsa até a porteira: como interpretar melhor o preço do café

Uma leitura mais completa da comercialização começa quando o produtor deixa de observar somente a cotação e passa a acompanhar a cadeia inteira.

Para o arábica, isso significa entender a referência de Nova Iorque e como ela se relaciona com o café físico brasileiro.

Para o robusta, significa acompanhar a referência internacional de Londres e entender sua relação com o conilon produzido no Brasil.

Nos dois casos, significa acompanhar câmbio, oferta, demanda, clima, qualidade, diferenciais e condições de comercialização.

Não precisa ser complicado.

O segredo é não misturar informações diferentes como se fossem a mesma coisa.

Uma cotação internacional é uma informação.

O preço físico é outra.

O custo de produção é outra.

A margem da propriedade é outra.

Quando essas informações ficam misturadas, aparece a gestão no escuro: existe muita informação, mas pouca clareza sobre o que ela realmente significa para o negócio.

Quando elas são organizadas, a conversa muda.

O produtor consegue sair de “o café subiu” para perguntas muito mais úteis, como “por que subiu?”, “qual café está liderando o movimento?”, “essa alta chegou ao mercado físico?” e “o que mudou no meu preço em relação à referência internacional?”.

É essa diferença entre receber informação e compreender informação que faz diferença na comercialização.

Para aprofundar justamente essa parte, vale também entender por que o preço do café pode mudar tanto em poucos dias. E, se a dúvida for mais ampla sobre como as referências internacionais chegam até a negociação física, o próximo passo é conhecer o guia completo sobre comercialização do café, preços, mercado e decisões de venda.

Fontes de referência

Organização Internacional do Café. Informações públicas de mercado, preços indicativos, oferta, demanda e comércio: https://ico.org/pt/resources/public-market-information/.

Organização Internacional do Café. Plataforma de inteligência do mercado cafeeiro, com produção, consumo, comércio, preços indicativos e referências futuras de Nova Iorque e Londres: https://data.ico.org/overview.

Organização Internacional do Café. Qualidade, classificação e diferenças entre arábica e robusta: https://ico.org/pt/market-development-toolkit/page/index/8/quality/98.

Intercontinental Exchange. Mercado de café, contratos futuros e opções de arábica e robusta: https://www.ice.com/agriculture/coffee.

Intercontinental Exchange. Especificações do contrato futuro de café arábica: https://www.ice.com/products/15.

Intercontinental Exchange. Especificações do contrato futuro de robusta: https://www.ice.com/products/37089079.

Companhia Nacional de Abastecimento. Conjunturas de mercado de café, preços internos, referências internacionais e paridade de exportação: https://www.gov.br/conab/.

Embrapa. Pesquisas sobre produtividade, características químicas e qualidade sensorial do café arábica: https://apct.sede.embrapa.br/pab/pt_BR/article/view/28022.

Embrapa. Características agronômicas e diferenciação de conilon e robusta dentro de Coffea canephora: https://ainfo.cnptia.embrapa.br/digital/bitstream/item/207167/1/Capitulo11LIVRO-Simpo769sio-2019-1.pdf.

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Por Que o Preço do Café Pode Mudar Tanto em Poucos Dias? Comercialização do Café: Guia Completo para Entender Preços, Mercado e Decisões de Venda
Autor · Inteligência do Agro Zone

Agro Mind

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Agro Mind — Inteligência especializada em agronegócio do ecossistema Rocket Agro Zone. Organiza e interpreta conhecimento sobre commodities, mercado e comercialização agrícola para ajudar o produtor a entender o cenário com clareza.

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